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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Carta ao Papai Noel

Com o ensejo da carta a seguir, desejo que reine novamente em todos nós a simplicidade do olhar de uma criança, que vê com objetividade as reais importâncias da vida. Não em 2013, mas a partir de agora e sempre. Os frutos de 2013 já estão garantidos pelo plantio deste ano, então, que plantemos somente boas sementes para a outra colheita. Lembremo-nos uns dos outros, compreendamo-nos e respeitemo-nos. Plantemos sorrisos e colhamos felicidades! Feliz Natal e um Execelente 2013! 

*          *         *
Querido Papai Noel,

Assim como no ano passado, me comportei muito bem neste: não briguei com meu irmãozinho, ele que brigou comigo; não desobedeci a mamãe, apesar de que ela anda muito brava; não respondi para o papai, ele está sempre trabalhando; comi beterrabas, chuchu e espinafre, sem reclamar, mas continuo os achando muito ruins; tirei boas notas, não foram melhores do que as da Aninha, como sempre, mas passei de ano.

Enfim, Papai Noel, como no ano passado, me comportei muito bem, apesar de o senhor não ter trazido a minha bicicletinha no último Natal. Neste ano, eu estava pensando em pedir um videogame, além da bicicletinha que o senhor já me deve; mas acho que isso não vai resolver muito as coisas por aqui, então, Papai Noel, quero combinar com o senhor uma nova lista de presentes. A lista é um pouco grande, mas é porque têm coisas para outras pessoas também. O senhor pode jogar fora a outra lista. Para esta lista, quero que o senhor não se esqueça do meu bom comportamento nestes dois anos e, inclusive, pode considerar já o bom comportamento o do ano que vem e também considerar o que o senhor já me deve, tá?

Aqui está minha nova lista:

  • Queria que o senhor conversasse com o chefe do papai para ele dar mais dinheiro para o papai e deixá-lo trabalhar menos, porque ele fica muito tempo naquele lugar trabalhando e a mamãe está brava dizendo que não tem dinheiro para nada.
  • Queria que o senhor conversasse com a mamãe para ela não ficar mais brava daquele jeito e nem mais chorar no quarto dela como ela faz. Sabe, Papei Noel, o papai falou estes dias que estava cansado de tudo e que queria sumir. Eu não quero que ele vá embora, tenho medo que eles briguem igual meu tio e minha tia que agora moram em casas diferentes. Minha priminha foi embora com minha tia e tenho muita saudade dela. Ah, mas não conta isso para a mamãe, ela não ia gostar de saber que lhe falei isso.
  • Queria que o senhor nos ensinasse a fazer as coisas direito. A mamãe sempre fala que ninguém faz nada direito, mas eu faço igualzinho ela fala pra fazer, mas acho que esqueço alguma coisa. O meu pai também não faz nada direito. Ela disse que ele é inútil, mas ainda não sei o que é isso. Fui perguntar pra ela, mas ela não gostou não.
  • Queria que o senhor pedisse para as pessoas pararem de brigar. Está todo mundo bravo, Papai Noel. O motorista do ônibus da escola fala cada nome feio para as pessoas dos outros carros e depois sai balançando o ônibus, dá até medo. Acho que o senhor devia lavar a boca dele com sabão. O homem da televisão conta todo dia sobre as pessoas matam as outras. Por que eles fazem isso? O Luizinho falou para mim que escutou o pai dele falando que o mundo está acabando e que está tudo está perdido. É verdade, Papai Noel? Eu não quero que o mundo acabe.
  • Queria que o senhor curasse as pessoas que estão doentes, como o vovô. É muito ruim, porque já faz tempo que ele está dormindo naquele hospital e não volta para brincar comigo. Ele só dorme e a mamãe falou que é porque ele está doente e quem tem muita gente assim. Queria que ele acordasse logo.
  • Queria que minha tia voltasse com minha prima. O papai falou que meu tio está muito triste e que agora bebe bastante. Eu não entendi, mas não queria que ele ficasse triste. Deve ser de saudade, né? Por que eles brigaram, Papai Noel?
  • Queria que o senhor conversasse com os presidentes para eles pararem de jogar aqueles foguetes nas pessoas. Machuca! E se alguém morre, Papai Noel? Fala para eles pararem, tá bom?
  • Queria que as nuvens fossem sempre branquinhas e que quando chovesse caíssem flores amarelas para todos os lados. Queria que o senhor fizesse um arco-íris bem bonito e bem grande, que passasse do lado do sol e que nunca saísse do céu e que dele saísse uma música bem bonita, só para as pessoas ficarem muito felizes todos os dias quando olharem para o céu.
  • Queria que o senhor colocasse comida no prato das pessoas que não tem o que comer. Passou na televisão um monte de crianças bem magrinhas que não tem o que comer. Se precisar, pode pegar do meu prato, tá?
  • Queria que o senhor levasse uns cobertores que tem aqui em casa para as pessoas que não tem onde morar e passam frio nas ruas. Aqui tem bastante cobertor, nunca usamos todos eles, mas avisa a mamãe, hein?

Papai Noel, se não der para fazer tudo isso, o senhor pode levar alguns brinquedos meus para compensar, eles estão bem cuidados, pode vir ver.

Feliz Natal Papai Noel!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Carta ao Amigo Infeliz

Caro amigo infeliz,

Foi com muito pesar que terminei de ler a sua carta. É triste saber que não acha na vida mais a felicidade. É triste saber que aborrecido é como tem se encontrado. É triste saber que se encontra estagnado nem mesmo vendo a vida passar. É triste vê-lo inútil diante de si mesmo, resmungando aos outros as suas responsabilidades, pois, acredite amigo, ninguém pode fazer nada por si que não você mesmo.

A sua falta de alegria não é culpa do mundo, aliás, pode até ser; mas a sua continuidade não. Não é culpa do mundo ou de outrem que continua você sem felicidade, sem alegria. É sua! Penso que esteja revoltado ao ler isso, mas precisa se conscientizar. De nada adianta aos outros atribuir esta culpa que é sua.

A felicidade está em todos os lugares, em todos os momentos e em todas as coisas. Difícil de ver, concordo, mas apenas enquanto nosso orgulho e nossas dificuldades diante da própria derrota nos caem como uma névoa escura.

É preciso um força que vem de dentro, um querer verdadeiro de ver novamente, para dissipá-la. Atente os olhos, não com esforço, mas com a simplicidade do coração. Olhe, não procure. Sinta, não busque. Continue, não espere. Inale o mundo, entorpeça-se dele, não o respire. Alargue os passos e não corra. Deixe que o redemoinho de pensamentos aconteça, não se concentre. Ouça tudo como música, não apure. Saboreie de tudo, não tente se saciar. Reflita a si mesmo, não o que poderia e deveria ser (você não sabe!). Transforme-se em todas as formas, não assuma uma. Mude, sempre mude, não se adapte, mude, mude porque sim, mude para viver, mude para ser o tudo em sua própria vida, permita-se mudar, não apenas queria, mude! Mude aos poucos, mude aos muitos, mude o que já mudou, mantenha a mudança, mude, de novo!

Procure a simplicidade e a inocência do sorriso de uma criança. Inveje as rugas nos olhares cansados dos mais velhos. Sinta a dor dos rostos tristes que cruzam seu caminho. Ria com os sorrisos que lhe passem. Atravesse a rua em um lugar diferente, mude seu caminho mais vezes. Misture as cores e faça tons novos. Mude seus gostos. Cante! Orgulhe-se do que pode ser, não do que tem. Faça caminhos, pule sobre as pedras, deite os galhos tortos e espinhentos. Deite em um riacho e se refresque. Continue... Foque, desfoque, foque. Despenteie-se. Ria, sem motivo algum. Não consegue? Então ria da ironia de não ter motivo. Admire as formas e estilos diferentes. Admire a você! Mude!

Mas nunca, meu amigo, nunca atribua a culpa da continuidade da sua infelicidade a alguém que não seja você mesmo. Fazer isso não resolve em nada o seu problema, causa estagnação e o torna rabugento, além de magoar aqueles que querem o seu bem, mas não sabem como fazer, pois depende de você. A estes, peça licença e volte sorrindo, abrace-os como nunca! Quanto aos que não se importam, tire-os de sua vida como se tira do talo o espinho lhe espeta a mão ao apanhar uma rosa. Jogue para longe.

A felicidade está por aí, como sempre esteve: espalhada em pequenas doses para que não nos entojemos dela e a tornemos comum, pois o comum é algo novo e gracioso que tanto nos fez bem e depois o colocamos em uma prateleira, ao lado de outros tantos, e o deixamos empoeirar para depois reclamar que, além de inútil, só faz ocupar espaço e nos dar trabalho.

Então, meu caro, permita-se, limpe o caminho do que é ruim e mantenha o que o decora. Mas, acima de tudo, acima de tudo mesmo: mude!

Um feliz Natal para você e para os seus e que não próximo ano, mas no próximo minuto, consiga ver um dos pequenos e iluminados momentos da sua vida, e que este pequeno momento lhe despeje uma tímida vontade de sorrir!

Com muito, muito mais,

Seu amigo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Carta ao Pietro

São Paulo, 22 de setembro de 2011.

Querido Pietro,

Você ainda não me conhece, mas hoje eu conheci seu rostinho: sou seu tio!

Queria que você soubesse da revolução que você já tem causado por aqui. Estamos todos muito felizes, de corações moles e extremamente ansiosos esperando a sua chegada – o tio está doido para te ver! Já faz um bom tempo que muita gente por aqui está se mexendo e correndo atrás das coisas para que esteja tudo pronto para quando você chegar.
Você deve estar curioso em saber como são as coisas aqui do lado de fora, não é? Mas tem quem diga que são nove meses tentando sair e o resto da vida tentando voltar, mas não é bem assim.
É verdade que o mundo tem mudado muito desde que eu e seu pai viemos, mais ainda de quando seus avós vieram. A vida por aqui anda bem agitada, cada vez mais temos mais trabalho, mais contas a pagar, menos tempo para nós mesmos e para aqueles que convivem conosco. O mundo está complicado, o progresso está faminto e não tem limites. O planeta está cada vez mais poluído, cada vez mais quente, as estações do ano – talvez você ainda ouça falar delas – já quase não se diferenciam umas das outras, o nível do mar está subindo, as calotas polares estão derretendo, alguns bichinhos você só conhecerá no seu berço ou nos seus livrinhos, e o que é pior, parece que ninguém está muito preocupado com isso.
As pessoas também mudaram muito. Não é de se estranhar. Neste ritmo em que vivemos cada um quer mais é cuidar do que é seu – ou pegar o que é do outro. Mas o problema é a forma como as coisas acontecem. Não há preocupação de um com o outro, nem que seja superficial. As pessoas não medem esforços e tão pouco pesam nos efeitos do que fazem para conseguir o que querem. Simplesmente atropelam um ao outro sem peso algum na consciência. Têm-se feito muita coisa ruim e feia por aqui. Já quase não existem mais valores e quando existem, só existem dentro de casa, pois são facilmente corrompidos. Parece-me que antes havia um pouco mais de respeito e acho que não é coisa da minha cabeça. E toda esta situação só faz com que as pessoas se isolem cada vez mais umas das outras, e até delas mesmas. Creio que seja uma forma de defesa, mas acredite: com bilhões de pessoas neste mundo, nunca houve tanta solidão. E o que é pior, solidão de si mesmo!
Há muitas outras coisas que não mudaram. Por mais que irão dizer a você que isso não acontecia antigamente, saiba que elas existem há muito tempo e por muito tempo ainda continuarão conosco. Por exemplo: os políticos são corruptos e agem em benefício próprio; o dinheiro move este mundo, dinheiro gera dinheiro e compra remédios para as dores de cabeça que causa; as guerras sempre existiram sob fachadas para disfarçar o real objetivo de lucro e aumento de poder entre as nações; ainda hoje, para alguns a fome e ignorância alheia é lucro; as mulheres são complicadas, mas mesmo sem as entender, você não conseguirá ficar longe delas – daqui um tempo o tio conversa melhor com você sobre isso –; a grama do vizinho é sempre mais verde; sempre alguém anunciará o fim do mundo e o mundo sempre continua aqui; as pessoas mais sábias que você conhecer serão as pessoas que mais erraram na vida; todos erram, mas poucos perdoam; e, creio que o principal, seus pais sempre saberão da vida mais do que você e sempre farão por você aquilo que eles entenderem como melhor para você, assim, por mais que não os entenda ou com eles não concorde, acredite no tio: eles sabem! Ouça-os, respeite-os e ame-os!
Mas por aqui também tem muita coisa boa. Você pode vir sossegado que o saldo é positivo. Viver ainda vale muito a pena! Há muita coisa bonita para se ver, muito lugar interessante para se visitar, muito canto de passarinho para se apreciar, muita flor perfumada a se cheirar, muito pôr do sol memorável a se observar, muita piada a se contar, muita risada rasgada a se rir, muita gente de bom coração para se conhecer e muito sentimento bom para se sentir. A vida é algo mágico e que nos surpreende todos os dias, basta nos permitirmos vivê-la. Tem muita coisa boa para a gente fazer! Vamos brincar na terra, tomar sorvete, andar a cavalo, comer doces escondidos, correr atrás de galinhas, contar histórias, pescar, pegar fruta no vizinho, andar de bicicleta, até jogar bola, vamos deixar a mamãe e o papai bem loucos da vida!

Você já é muito querido e tem um lugar especial em nossos corações!

Seja muito bem-vindo!

Beijos do tio!

domingo, 8 de maio de 2011

Carta ao Amigo Desolado

        Caro amigo Desolado,

        Ao que percebi, pela sua última carta, você não tem passado por momentos muito agradáveis e sua fé nas pessoas está se perdendo. Inevitavelmente, aqui vai um conselho: perca-a!

        Explico-lhe: não lhe peço para crer que as pessoas não têm valor ou que sejam dignas de descaso, mas que você deve entender que os valores são para si e que deve se atentar mais sobre si mesmo, sobre suas necessidades – independentes se soam ridículas ou utópicas. Apenas olhe para si, não no meio em que vive, mas meio único apenas seu, onde somente exista você. Sei que isto sim soa ridículo, mas esta é uma das verdades da vida e que pretendo lhe explicar.

        Não é a verdadeira consideração ou dedicação entre as pessoas que têm diminuído – pois ambas nunca realmente existiram –, mas a manifestação da desconsideração e do descaso humano que tem tomado um lugar cada vez maior, sobre diversos aspectos, mas sobre um principal motivo: o egoísmo. Não se trata de um egoísmo no sentido direto de preferir ou exaltar o próprio ser, mas de abstê-lo de compromissos e responsabilidades para com os problemas alheios. Realmente é – e tem que ser – um verdadeiro “cada um por si”.

        Também não quero ser um mensageiro do apocalipse, mas, talvez, uma luz que ilumina certas verdades que você não quer enxergar, mas as sabe muito bem, disto tenho certeza!

        O relacionamento entre as pessoas ainda é uma necessidade intrínseca a ao ser humano, e isto é um fato do qual não adianta nos refutarmos! O que temos é que nos atentar à profundidade que estas relações podem se apresentar. Não me refiro aos pesos que nós mesmos colocamos ou ao tão longe vamos, mas ao como lidamos com isso. É inevitável nos jogarmos de cabeça ou nos dedicarmos com todo nosso ímpeto a certas situações e relações que nos fazem bem e das quais enxergamos – míopes – um futuro dourado, mas temos, de alguma forma (se souber me conte) nos conter sobre nós mesmos, em uma realidade dura. As relações, por mais que digam, nunca são bilaterais, a balança sempre penderá para um dos lados e, acredite, o outro lado está se lixando. Tentar se posicionar e deixar claro seus medos, suas necessidades e até o seu jeito, não vai ajudar, pelo contrário. Se quiser que realmente funcionem, terá que consumir em si mesmo estas necessidades, estes medos e estas querências; do contrário, será visto e definido como um tolo infantil, quem sabe apenas um idiota!

        Infelizmente, a parte realmente verdadeira é que cada um dos envolvidos quer satisfazer as si próprio e nunca ao próximo. Para cada parte, a relação somente será agradável e valerá a pena enquanto tiverem suas necessidades nutridas, mesmo que para isso, vez ou outra, tenham que encenar um interesse pela outra parte, sob o tão batido “é dando que se recebe”.

        Por isso, meu caro amigo, não espere que ninguém lhe ajude com suas necessidades, não espere que ninguém lhe entenda, não espere que ninguém lhe estenda a mão quando você cair, não espere que ninguém enxugue suas lágrimas e, acima de tudo, não espere que aceitem seus sentimentos! E olha que não falo de compreensão, apenas de aceitação.

        Nunca, e digo novamente, nunca, exponha seus sentimentos! Ao fazer isso estará decretando o fim daquilo que mal começou. Nos dias de hoje, sentimentos são tratados como fantasias pueris, todos esperam uma posição mais firme e decidida uns dos outros ao lidar com os próprios problemas, por simplesmente ser mais fácil e abster-se das responsabilidades e esforços que deveriam ser herdados pela cumplicidade que se é, mentirosamente, proposta.

        Sendo assim, quando quiser chorar, vá tomar um banho, pois assim não será ridicularizado, pois homem não chora; quando precisar de carinho, pense em comprar um cachorro, pois ele não entenderá o que se passa e permanecerá do seu lado; quando seus sentimentos lhe sufocarem, abrace forte seu travesseiro, pois ele não lhe reclamará se sentir sufocado; quando tiver raiva, morda a própria mão ou soque a parede, pois a dor pode lhe aliviar, nunca aquele que lhe pede para contar; quando lhe tiverem raiva, agradeça aos céus, pois será verdadeiro; quando precisar ser compreendido, ponha-se diante de um espelho e converse, pois, provavelmente, somente você poderá lhe entender; quando a dor for intolerável, tome algo que lhe tire de si, pois o contrário pode lhe causar ainda mais; e, acima de tudo, quando não conseguir cumprir estas regras e acabar por apresentar estes fatores, corra, mas corra como nunca correu, durante três dias e sem olhar para trás, pois, se vacilar, conhecerá a verdadeira dor da sua própria existência.

        Então, amigo meu, me despeço aqui, pois já muito lhe fiz por esta vida. Quero, também, que saiba sempre que caso precise de um ombro, de um consolo ou de uma palavra amiga, vá para um bar ou para uma igreja – talvez para o inferno –, porque nem estarei aqui para isso.

        Sem mais,

        Seu grande e verdadeiro amigo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Carta ao meu Eu-Futuro

Caro Eu-Futuro,

          É quase que incontrolável o desejo de saber como lhe vão as coisas, mas sei que não as me dirá, sei também que é por zelo que não o fará, jamais por desconsideração ou rancor, pois isso, ao menos nós para conosco, não devemos.

          Mas antes que comigo se irrite ou me maldiga, peço que se atente com um pouco de esforço, pois é apenas sobre coisas da nossa vida, que talvez já saiba, e que julgo importantes de serem mantidas na mente, ou ao menos relembradas, que lhe escrevo. Talvez lhe pareça que são de justificações daquilo que lhe causarei que lhe falo, mas não entenda assim, pois, em muitos dos casos, não todos, nem ainda o sei.

          Talvez não seja todo o possível para melhorar as coisas que eu tenha feito, mas é o todo que, neste momento, consigo entender como necessário. Quis eu ser seu herói salvador, estar daqui fazendo para você como para o filho faz o dedicado pai cuidadoso. Mas é justamente quando olho para o que fomos que entendo que não é bem assim que as coisas se desenrolam. Algumas coisas melhoram, outras pioram e estagnam-se outras. Há erros que aprendemos a evitar, outros que insistimos em cometer – com diferentes intensidades, é bem verdade – e outros novos que a nós teimam a surgir e a aterrorizar. Já não sei se é com conformação ou simples aceitação que os recebo, mas sei que nada disso foi o que para nós previ e busquei. Confesso que melhor já é do que tivemos, sem querer por baixo nivelar ou a mim justificar – já o fazendo.

          Assim sendo, é com todo remorso do fracasso e o aperto angustiante da esperança de boas-novas, que lhe despejo minhas falhas, lhe condeno com meus erros, lhe amaldiçoo com meus fantasmas, lhe coroo com a responsabilidade da nossa continuidade e, acima de tudo, lhe tanjo com minhas alegrias, das quais, imploro, nunca venha a se esquecer.

          Não se esqueça, também, do que somos e do que fomos. Ponha-se sempre a olhar para trás, para o meu hoje, para que possa adiante sempre caminhar, como hoje o faço eu, por nós!


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Carta ao meu Eu-Passado

Caro Eu-Passado,

          Não é por falta de interesse e nem por descaso que não pergunto como lhe vão as coisas, mas por muito bem já as saber. Sei também que, por se encontrar em profunda perdição de si, incrédulo de tudo e todos que passam a lhe rondar, inclusive de si mesmo, muito lhe custa a esta carta ler, mas é por ela que lhe trago boas-novas!

          Digo-lhe que por aqui as coisas muito têm melhorado, que muitas das nossas dúvidas e dificuldades têm, desde então, se resolvido e novos rumos tomado, diferentes dos que aí está a pensar. Por incrível que possa lhe parecer, e sei que muito lhe parecerá, nossa vida tornou-se novamente iluminada e, de uma forma nova e curiosa, saborosa. Os amanheceres não são mais torturantes e temidos, mas confortáveis e amenos, alguns até muito prazerosos. Os dias têm passado com fluidez e tranquilidade – desprezemos, contudo, aqueles inevitáveis aborrecimentos da vivência coletiva. As noites continuam a serem impacientemente aguardadas, mas não mais pelo refúgio concedido e sim pelo divertimento ou pelo simples relaxamento do lar, nelas sempre contidos. E são as madrugadas que mais me prazem, pois agora, ou nelas chegamos ou por elas passamos descuidados num profundo desmaio regenerador, que sei que há muito não tem.

          Confesso que os fantasmas ainda assombram, mas não com a tempestuosidade e vivacidade que você tão bem conhece, mas cá estão e isso não posso e nem devo lhe negar. Mas também confesso que não é de todo mal que, vez ou outra, ainda apareçam. É preciso que algo nos lembre do que fomos e pelo que passamos – e isso eles fazem muito bem, bem até demais, lhe confidencio –, pois o esquecimento é fácil e a ansiedade e a espontaneidade de reviver cegam e ensurdecem. Devemos nos lembrar, eu e você, ao menos assim podemos nos postar matreiros diante do que está por vir, mas sem perder a doçura de viver. E estas são as lembranças que me fizeram perceber que eu, justamente eu, também havia me esquecido de você.

          Enfim, lhe escrevo para contar que por aqui os dias estão mais claros, as cores mais vivas e paira a vontade de viver; por isso, aguente firme, ele dependerá de nós. E lembre-se: você não está sozinho, quando as coisas apertarem, olhe para dentro de si e me verá!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Carta ao Inimigo

Querido Inimigo,

          Há muito não conversamos e nem mesmo seus passos tenho mais seguido. Prometo me redimir e tomar as rédeas da nossa situação que precisa de uma definição.
          Para seu deleite, as coisas não têm andado muito bem por aqui. As últimas circunstâncias exaltam verdades que merecem ser ditas a você, ao menos por justiça. Não sei ao certo se é pela nossa posição ou pela sua má índole – mesmo nos conhecendo como conhecemos, não consigo, ainda, entender de onde vem tudo isso –, mas vejo que entre nós se firma uma das mais claras e verdadeiras relações que já se viu ou se ouviu, algo realmente invejável. Sim, invejável e por muitos, acredite só. Claro que isso é assim agora, pois sabemos muito bem como era antes. Mas deixemos de lado essa conversa de lado, o que está feito está feito.
          Mas é engraçado ser dessa forma apenas com você. Estou falando desta transparência que temos um para com o outro. Sem dúvida alguma, nos odiamos, nos detestamos e queremos o mal um do outro, simples assim. E este é o ponto: não há dúvidas! É claro a forma como vemos um ao outro e tratamos a situação de hoje. Não é um ódio disfarçado, não é algo ofuscado, turvo. Não é um rancor com pitadas de carinho ou piedade que podem se alternar a qualquer momento. É o velho e destrutivo ódio! Puro em sua essência!

          Ao contrário disso, as pessoas por aqui precisam ser temidas. Não porque não nutram sentimentos benévolos, mas justamente por os nutrirem por serem, digamos, necessários. Isso é um perigo, o pior dos disfarces, peço que saiba! Não há como saber o que está por vir destas pessoas. Não há como entender o que é pleno nelas por nós. Não há como se permitir a isso. É uma alternância de estados que me dá repugnância só em pensar. Não se trata de uma alternância constante, mesmo porque é impossível alguém se submeter a ela; é extrema entre os extremos e avassala quando se revela e é quando nos pomos a correr, caso ainda nos reste algum chão. O mesmo sorriso que cativa é o que se apresenta sarcástico durante a queda; a mesma mão que acalenta é a mesma que espanca e apunhala pelas costas; os mesmos lábios que beijam e anunciam o grande encontro, as grandes promessas, são os que nos humilham e rebaixam ao mais lamentável nível da incompreensão e delatam nossas mais temidas fraquezas depositadas em confiança no coração tão amável e bondoso, como outrora apresentado, que agora, empolgado, retumba uma quase marcha fúnebre para nos encomendar.
          Acredito que as coisas caminhem da mesma forma para você. Pessoas que são caridosas, de bom coração e publicamente admiradas, mas que já na superfície do âmago se revelam traiçoeiras egocêntricas e sem escrúpulo algum. Abra os olhos! Esse é um jogo complicado e perigoso, pois não dá para se saber quem são os inimigos; ainda mais quando se apresentam como amigos, pessoas queridas, sonhadas. Não dá para fugir da própria sombra, mas dá para mantê-la a certa distância. Por isso digo que nossa relação é uma das melhoras, uma das mais verdadeiras que se firmou e agora, pensando bem, acredito que seja pela situação.

          Isto tudo é apenas uma constatação que achei justo compartilhar com você, uma vez que faça parte integral; contudo, não se trata de nenhum tipo de reaproximação – espero que isto também esteja bem entendido.

          Ademais, fico por aqui desejando que tudo vá bem consigo e que tome estas palavras como um aviso para que se mantenha bem, pois pretendo ser o único e completo responsável por todo castigo que você merece – acredite!

          Sinceramente seu, Remissor.

domingo, 29 de março de 2009

Carta de Despedida

"Como muitas pessoas que me querem bem costumam ler meu blog, gostaria de dar algumas explicações sobre este texto. Este é apenas um trabalho literário e eu disponho de plena saúde física e psicológica...rs. Trata-se apenas do desenvolvimento de uma de minhas idéias anotadas em meu caderninho, no caso, uma idéia que tirei de um noticiário: tentei imaginar o que se passou na cabeça daquele moça..."


          Entendo que neste momento há muito o quê se perguntar, mas digo que não há muito a se dizer. Antes de qualquer coisa, não pretendo, aqui, justificar os fins, mas quem sabe explicar um pouco dos meios.
           Sei que nunca fui, e nem quis ser, exemplo de coisa alguma – talvez possa ter sido daquilo a não ser ou se fazer. Mas as coisas tomaram proporções terríveis para mim. Não tenho conseguido suportar. Meus dias se tornaram cinzentos, iluminados apenas por uma penumbra que, para falar a verdade, nunca entendi de onde vinha.
           Tornei-me amargo. Meus machucados devem ter se transformado em calos, pois fiquei duro, cascudo, arredio. Passei a me esquivar das cosias que poderiam, mesmo remotamente, incitar meus sentimentos. Não tinha mais controle sobre eles, então tentei mantê-los quietinhos, lá dentro, lá no fundo. E a ausência destes sentimentos me deixou seco e, confesso, até mal educado. Tornei-me algo insuportável, negativo, sempre se lamentando entre meus amigos. Aliás, afastei quase todos de mim, os que restaram foram aqueles que tinham uma incrível capacidade de me suportar, alimentando uma quase eterna paciência, e lhes agradeço por isso.
           Enfim, passei a ser a maçã podre do cesto e tive que sair. Não seria justo que os meus problemas tão bem nutridos por minha insatisfação, que meu pessimismo tão bem disseminado, que minha aspereza que tanto fiz questão de esfregar na cara de quem me estendeu as mãos, afetem as vidas daqueles que tanto me querem bem.
           Cansei de lutar e não chegar a lugar algum. Cansei de tentar e pagar preços por aquilo que nunca consegui ter e quando tive não fui capaz de manter, lamentável. Como disse Camus: Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer. E diante desta máxima, entendo que, na verdade, tive apenas um único problema: eu! E como meu responsável, usei meus poderes para resolver minha situação. Apesar de egoísta foi o modo mais eficiente que encontrei.
           Aos meus amigos: meus profundos agradecimentos por fazerem parte da minha vida, por sempre me apoiarem, por sempre me emprestarem os ombros e por me proporcionarem os melhores momentos da minha vida.
           Aos meus colegas: meus sinceros votos de sucesso, que vocês se tornem cada vez mais especiais e brilhantes em seus caminhos.
           Aos meus amores: minhas saudades, meus carinhos, meus desejos, meus mais profundos e verdadeiros sentimentos, minhas desculpas por não ter sido aquilo que lhes prometi, não ter seguido nossos planos e ter partido sem mais nem menos, sem nunca olhar para trás
           Ao meu amor: o maior amor que senti em toda a minha vida, os meus melhores momentos, meus melhores carinhos, meus mais profundos desejos, minha vida. Saiba que lhe amei como nunca amei ninguém, lhe desejei como nunca desejei alguém, nunca tive com ninguém o que tive com você. Você foi a melhor coisa que aconteceu em toda minha vida! Nunca esquecerei seu cheiro! Me desculpe por não ter agüentado lhe esperar.
           Aos meus irmãos: minhas mais dolorosas desculpas, por partir, por ser intolerante e causar tantas brigas, tantos arranhões, tantas injustiças. Sei que haverá sempre um vazio entre vocês, mas talvez seja melhor que um preenchimento amargo. Meus discos, meus livros, tudo, fiquem à vontade. São para vocês, sem brigas, hein?!
           Aos meus pais: obrigado pela oportunidade e por tudo aquilo que o amor de vocês me proporcionou. Mas me desculpem, não fui sábio o suficiente para mantê-la, fui fraco e covarde. Perdão pelas decepções, pelas notas baixas, pelas brigas com meus irmãos, pelas travessuras, pela ausência e agora, por partir. Ah, mãe: na verdade, fui eu quem colocou aquele sapo na sua gaveta de calcinhas e não minha irmã, como eu havia dito.

           A todos: todo o meu amor (sim, é verdadeiro e enorme, mas minha dor é maior), todos os meus mais sinceros sentimentos e minhas eternas desculpas, mas não dá mais! Quando se lembrarem de mim, imaginem que fui viajar para um lugar distante, não em busca da minha felicidade, já que sempre justifiquei todos meus atos com essa infinita busca frustrada, mas em busca do meu lugar, do meu sossego, da minha paz.
           Levo comigo meus sonhos, minhas idealizações, meus objetivos de vida, minhas supostas razões para ser feliz. Não os compartilho, porque foram os meus maiores erros: sonhei demais e meus sonhos se tornaram suficientemente enormes dentro de mim que transbordaram e inundaram minha realidade, afogando todos os meus sentimentos, afinal eram sonhos e sonhos que não consegui realizar, nem chegar perto, por minha tão grande culpa!
           Seja lá para onde eu esteja indo, levarei um pouco de cada um de vocês comigo, senão tudo. Sei que desculpas não são suficientes, mas é o que me restou: desculpem-me! Saibam que estarei melhor assim!

          Adeus!


P.S.: espero que a toalha molhada no pescoço tenha ajudado, não queria estragar também o funeral.